Os bastidores do poder e da
política em primeira mão

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Blog 02.04.2022 12:00

O tombo dos distintos

Por , edição de Ítala Alves compartilhamentos

Por Marcelo Tognozzi *

Esta campanha eleitoral está mostrando que os políticos fabricados, aqueles sem passado, dificilmente terão futuro. Sergio Moro, ganhou notoriedade com a Lava Jato e sonhou ser presidente da República sem nunca ter ganho um voto sequer. Moro é um homem que não gosta de políticos, os despreza.

Teve a cara de pau de ligar para seu padrinho, o senador Álvaro Dias (Podemos), com uma proposta indecorosa: Dias abriria mão da reeleição quase certa e apoiaria Moro para o Senado. A velha raposa ficou com a certeza de que o fracasso subiu à cabeça do ex-juiz. Em novembro, o distinto entrou no Podemos pela porta da frente e, 4 meses depois, deixou o partido pela porta dos fundos.

Numa época em que não havia pandemia nem guerra na Europa, o Brasil viveu em uma turbulência chamada governo Dilma Rousseff, a “presidenta” que detestava os políticos e nunca ganhara uma eleição. Foi eleita a bordo da vaidade e do prestígio do ex-presidente Lula. Dilma soltou a rédea da inflação, que bateu 11,7%, e quando deixou o governo 12 milhões de brasileiros não tinham emprego.

Certa vez, durante uma reunião na Faria Lima em 2014, me perguntaram como eu definiria Dilma. Respondi que ela era igual ao ex-presidente João Figueiredo. Detestava os políticos e a política, tinha um viés autoritário tamanho, que, pela sua lógica, se havia um líder do governo na Câmara ou no Senado este líder devia vassalagem a ela. O raciocínio era mais ou menos assim: se ele é líder do governo e eu sou a presidenta, então quem manda nele sou eu. Em 2018, a distinta perdeu a eleição para o Senado em Minas e amargou um 4º lugar.

Sergio Moro destilou raciocínio semelhante quando naquela sua aventura no Ministério da Justiça decidiu peitar o Congresso imaginando obrigá-lo a aprovar seu pacote da segurança pública. A excelência delirou. Agiu ignorando o básico: nenhum deputado ou senador senta naquelas cadeiras sem a legitimidade do voto popular. No plenário, o voto de um deputado por Rondônia tem o mesmo valor do voto do deputado por São Paulo. Tudo igual.

Como Dilma, ele nunca entendeu que política se faz conversando, negociando e engolindo sapos. Moro não engole sapo e, como naquele samba de Billy Blanco, “não carrega embrulho, não fala com pobre”. Junto com sua candidatura, que nunca passou de um sonho de verão (afinal ela acabou no outono), Moro leva embora consigo a empáfia de quem se achava crocodilo, mas no fundo nunca passou de lagartixa.

João Doria também não carrega embrulho nem fala com pobre, porém deu mais sorte que Moro e Dilma. Eleito prefeito debaixo da asa do então governador Geraldo Alckmin, acabou largando o mandato no meio. Ganhou o governo de São Paulo e, junto, a fama de traíra por ter abandonado o padrinho que disputava a presidência. Em política, até traição precisa ser combinada. Certa vez, o deputado Wigberto Tartuce, o Vigão, não hesitou quando o líder Paulo Maluf veio cobrar seu apoio numa votação importante: “Paulo eu te amo, mas vou dar uma traidinha e já volto”.

Doria foi contaminado pelo próprio veneno. Perdeu a credibilidade, acabou mais desvalorizado que peso argentino. Conseguiu fabricar uma vacina contra a covid-19 em tempo recorde, mas não logrou transformar esta proeza em votos. Se tivesse descoberto a cura do câncer ou da aids daria no mesmo. Venceu as prévias do PSDB derrotando Eduardo Leite, mas daquela vitória não emergiu um estadista, um pacificador. Doria se transformou no coveiro de um partido que governou o Brasil 2 vezes e estabilizou a economia com o Plano Real. Com ele, o PSDB perdeu a majestade.

Doria agora é um passivo difícil de digerir. Deu uma de Salomé e quase entregou numa bandeja a cabeça do vice Rodrigo Garcia para os adversários. Blefou que ficaria no governo e desistiria de ser presidente. Garcia, que precisa da cadeira e da caneta para decolar, endoidou. No fim era só uma birra e Doria seguiu seu destino. Será triturado pelas urnas se chegar inteiro até outubro.

Como Moro, Doria também precisa aprender com a Banca do Distinto, aquele samba imortal de Billy Blanco: “A vaidade é assim, põe o bobo no alto E retira a escada Mas fica por perto esperando sentada Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal Todo mundo é igual quando o tombo termina. Com terra por cima e na horizontal”.

* Marcelo Tognozzi - 61 anos, é jornalista e consultor independente. Fez MBA em gerenciamento de campanha políticas na Graduate School Of Political Management - The George Washington University e pós-graduação em Inteligência Econômica na Universidad de Comillas, em Madri. Escreve semanalmente para o Poder360, sempre aos sábados.

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